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Entrevistas / Perfis

O ator americano David Rasche em "Olhos azuis"/ Divulgação

28-05-2010 ////////

José Joffily

Diretor lança "Olhos Azuis", projeto que conta com elenco internacional

Mudar o mundo com os filmes foi o que motivou o cineasta José Joffily a iniciar a sua carreira no cinema. Depois de dirigir “Dois Perdidos Numa Noite Suja” e “Quem Matou Pixote?”, o diretor aposta em seu novo longa, “Olhos Azuis”.

Mais um produto de qualidade com o auxílio luxuoso da Globo Filmes, "Olhos Azuis" levou o Prêmio Menina de Ouro como melhor longa de ficção no Festival de Paulínia e foi exibido na mostra Hors Concours do Festival do Rio, ambos em 2009. O diretor fala, nesta entrevista, sobre como surgiu a inspiração para o filme e também sobre as expectativas para o lançamento. Veja o trailer e cenas do filme.

De onde veio a ideia para a elaboração de “Olhos azuis”?
Um amigo de longa data foi interrogado no aeroporto de Nova York e, em seguida, deportado. Sem residência fixa no Brasil e sem poder voltar para sua casa nos Estados Unidos, viveu uma situação inusitada e ficou hospedado comigo. Foi meu convidado ao longo de três meses e, no decorrer desse tempo, contou com detalhes sua experiência de persona non grata. Boa parte da narrativa é factual. Depois, à sua história somaram-se relatos de amigos e conhecidos, todos testemunhando experiências e constrangimentos em aeroportos. A primeira ideia veio daí.

E o desenvolvimento?

Como sabemos, a ideia é um ponto de partida vulnerável e pode mudar com o tempo. Para desenvolvê-la convidei primeiro um velho parceiro e amigo, o Jorge Durán. Além de grande contador de histórias, como imigrante, conhece bem a experiência. Em seguida, convidamos a Melanie Dimantas e com ela a história ganhou humor e sarcasmo. Depois desse primeiro tratamento, nosso roteiro ficou parado, quieto num canto. Para alavancar um filme, é claro, é preciso dinheiro. Assim, outros projetos tomaram a frente. No entanto, nove anos depois, contemplado com os primeiros recursos, “Olhos azuis” voltou à tona. O dinheiro alavanca, dá coragem e nos compromete, mas achei que o roteiro precisava ser reescrito para ganhar fôlego novo, para reconquistar-nos. Convidei o Paulo Halm e discutimos uma nova vertente para a história. Um roteiro pode ser reescrito eternamente, e era o que parecia que estávamos fazendo, quando a Heloisa Rezende, nossa produtora executiva, deu um “basta” e disse que estava na hora de filmar.

Defina "Olhos Azuis".
O filme conta a história de um cara, um oficial da imigração americana, que detém arbitrariamente passageiros latinos dentro de uma sala de um aeroporto de Nova York. Inconformado com sua aposentadoria compulsória, alcoólatra e em seu último dia de trabalho, Marshall, com seus dois subordinados, Bob e Sandra, conduz interrogatórios que tomam um rumo surpreendente. O alvo principal do oficial é um brasileiro radicado nos EUA e detido no aeroporto na volta de suas férias no Brasil. Simultaneamente, dois anos depois do episódio da imigração, vemos Marshall cruzando o sertão de Pernambuco, na expectativa de encontrar a paz de espírito. Mas nessa busca, ele percebe que a desilusão e o desamparo são os únicos sentimentos que o acompanham.

Como foi a escolha dos atores?
Sempre considerei que deveria filmar com atores nacionais dos países dos personagens. Fazer essa agenda foi difícil, cara e trabalhosa, mas necessária. Contratei agências na Argentina e nos EUA. Vi testes e depois viajei para ratificar as escolhas.

Como foi dirigir o David Rasche?
Dirigir um ator com tantos recursos como o David é uma tarefa muito prazerosa. É como assistir a um segundo nascimento do personagem, desta vez fora do papel, ao vivo e a cores. As contribuições do bom ator são inestimáveis, acrescentam e dão confiança à direção. No entanto, no início, era grande a expectativa com o convite ao David Rasche, afinal seria nosso protagonista. Já tinhamos visto alguns testes enviados pela pessoa que contratamos para sugerir o elenco americano. Depois de uma primeira seleção, viajei para Nova York onde assistimos mais alguns testes, agora já com cenas dos filme. Feita o convite, só voltei a ver o David no aeroporto de Recife, onde ele desembarcou para iniciarmos as filmagens. A expectativa era grande e acho que o David superou o que esperavamos do trabalho dele.

E o Irandhir? Este parece ser o ano dele, não?
O Irandhir soma esforço ao talento que tem. Inteiramente comprometido com o personagem e com o filme, desde o início o Irandhir nos deu segurança. Muita merecida a avaliação positiva de seus trabalhos recentes. O personagem do Nonato não era fácil e, contracenar em outro idioma impõe limitações que ele soube superar.

Quais são suas maiores referências cinematográficas?
São inúmeras, tantas e tão variadas que poderia preencher mil páginas. No entanto, a partir de Roberto Rossellini o cinema não foi o mesmo. Os filmes se dividiram em duas bandas, uma que negava Hollywood e outra que seguia. A primeira alternativa sempre me pareceu mais sedutora. Fora isso, hoje os cineastas que mais me impressionam e influenciam são os amigos, os contemporâneos, que moram no meu bairro, na minha cidade ou pelo menos no país. Sem dúvida alguma, são esses os filmes que mais me interessam e que me seduzem.

 

Esteticamente, qual foi o caminho escolhido para contar a história?
A construção estética de um filme é feita dos conceitos de vários departamentos. Certamente que a direção de fotografia, a direção de arte têm de estar afinadas para o bom fim das propostas. Como o filme avança alternando duas situações inteiramente diversas, acertamos que tanto a arte e como a direção de fotografia iriam pontuar claramente essa diferença. A sala onde ficam confinados os viajantes foi rodada em estúdio e a opção foi por planos fechado e por uma luz azul e difusa que reforçava o contraste com a luz natural do nordeste. No nordeste optamos por planos abertos. O som teve tambem uma função determinante no filme, contribuindo para a condução do thriller. O som da sala da migra é composto apenas por ruidos e som ambiente, que pontuam muito bem a evolução da tensão. Já no Nordeste, utilizamos trilha, que ilustra a viagem do casal pelo interior.

 

 

 

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