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Rápidas

Depoimentos ilustram o "filme xodó" do cineasta

09-03-2010 ////////

Utopia e Barbárie

Novo filme de Silvio Tendler chega aos cinemas no dia 23 de abril

O Brasil era tricampeão mundial de futebol, Fernando Collor era o presidente da República, telefone celular era luxo para milionários e a internet, coisa de ficção científica, quando Silvio Tendler começou a produzir “Utopia e Barbárie”, documentário que chega aos cinemas no dia 23 de abril (veja o trailer aqui). Nos 19 anos transcorridos de 1991 para cá, entre um filme e outro, o documentarista pesquisou imagens de arquivo, gravou depoimentos, estudou história e remoeu suas memórias para finalmente levar às telas uma reflexão sobre os ideais revolucionários da geração que foi às ruas em 1968 e os sonhos dos jovens de hoje. Trabalho feito sem pressa.

“A consequência da passagem do tempo para o filme é a mesma do envelhecimento do vinho. Não acredito em documentário vapt-vupt. Trata-se de um gênero que necessita de um tempo de maturação. Principalmente quando se trata de um resgate da história”, explica Silvio, lembrando que este tipo de análise requer um distanciamento temporal razoável.

Responsável pelas três maiores bilheterias do documentário nacional - O Mundo Mágico dos Trapalhões (1981, 1,8 milhão de espectadores), Jango (1984, 1 milhão de espectadores) e Os Anos JK – Uma Trajetória Política (1980, 800 mil espectadores) – o cineasta lembra que todos os seus filmes foram feitos em ritmo semelhante, mas revela que nenhum o consumiu tanto quanto “Utopia e Barbárie”. “É o meu xodó. Nos outros filmes, eu sempre parti de personagens para contar uma história. Este é o meu primeiro documentário autobiográfico. Por isso, é narrado na primeira pessoa”, esclarece.

“Utopia e Barbárie” traz também depoimentos de conhecidos militantes de esquerda perseguidos pelas ditaduras latino-americanas como o neurologista argentino Ivan Izquierdo, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o escritor paraguaio Martin Almada e a pré-candidata à Presidência da República Dilma Roussef – os dois últimos torturados violentamente. Outro entrevistado foi o general comunista Vo Nguyen Giap, que liderou a vitória dos vietcongs sobre o exército americano no Vietnã. As falas são ilustradas por imagens marcantes, entre elas, as do bombardeio do Palácio de La Moneda, no Chile; da repressão militar nas ruas, de guerras e de discursos eloqüentes de Fidel Castro e Leonel Brizola.
Silvio faz questão de ressaltar, porém, que o documentário não aborda a luta revolucionária de forma nostálgica e tampouco critica a visão de mundo dos jovens do século 21. “Quero ser contemporâneo ao mundo em que vivo. Não faço filmes históricos por nostalgia, mas como reflexão visando ao futuro que quero construir”, afirma ele, acrescentando que, assim como o mundo, também mudou: “Hoje, sou mais condescendente com aqueles que condenava e mais rigoroso com as suas antigas paixões”.

O diretor diz compreender a existência de um fascínio em torno da rebeldia dos anos 60, mas considera estupidez querer reviver tal realidade nos dias de hoje. “O fundamental é entender que sobram razões para continuarmos lutando por um mundo melhor. Por isso, não consigo condenar os jovens de hoje. O que eu pretendo é entender quais são as utopias deles. Acho que estão nos conduzindo para uma democracia virtual”. Saudades, apenas do amigo e diretor teatral Augusto Boal, além do militante comunista Apolônio de Carvalho e da escritora americana Susan Sontag, personagens do documentário que faleceram antes de seu lançamento.
 

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